Ciclovia Tim Maia: a importância da avaliação de riscos na Construção Civil

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Figura 1: Ciclovia Tim Maia. Foto: Benny Cohen

Inaugurada em 2016, no Rio de Janeiro, a ciclovia Tim Maia (figura 1) oferece um dos mais lindos e agradáveis passeios ciclísticos da cidade. Ela liga a Zona Sul à Barra da Tijuca, acompanhando a Avenida Niemeyer ao longo do mar da cidade maravilhosa.

Mas, nem tudo são flores quando se fala dessa obra. Não é preciso muitas informações sobre o assunto até que todos se lembrem do trágico episódio que ocorreu pouco tempo depois de sua inauguração, em 2016, deixando dois mortos e três feridos, quando uma forte onda atingiu a ciclovia de baixo para cima (figura 2), ocasionando o colapso da estrutura, já que o tabuleiro foi apenas apoiado nos pilares de sustentação.

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Figura 2: Forte onda atingindo a ciclovia. Foto: Rogério Tadeu Romano

Durante um longo período de interdição da pista para manutenção e correção dos erros, um novo acidente ocorre em 2018: outro trecho da ciclovia cede, devido às fortes chuvas que atingiram a região (figura 3). Segundo a Secretaria de Urbanismo do município, o solo abaixo da ciclovia cedeu por conta de uma erosão causada pela infiltração da água da chuva.

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Figura 3: Trecho da ciclovia que cedeu após erosão. Foto: Bárbara Carvalho/GloboNews

Como se não bastasse, mais uma vez, a obra passa por momentos críticos. Após as reformas para que a construção suportasse esforços verticais de baixo para cima, e novos testes de cargas verticais de cima para baixo realizados pela prefeitura, agora a grande surpresa foi uma grandiosa carga atingindo a estrutura horizontalmente, ocasionada por um deslizamento de terra ocorrido na encosta lateral da Avenida Niemeyer, em São Conrado (figura 4), no dia 7 de fevereiro de 2019. Segundo o prefeito Marcelo Crivella, foram centenas de metros cúbicos de massa de solo, cada metro cúbico pesando duas toneladas, que desceram da encosta, atravessaram a avenida e empurraram um tubo da CEDAE que passa pela área contra a ciclovia, ocasionando o colapso.

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Figura 4: Ciclovia após ser atingida por deslizamento de terra. Foto: Reprodução/TV Globo

Todas essas fatalidades nos levam a crer que, diferentemente do que se esperava, não foi realizada uma análise de risco detalhada antes da concepção do projeto e, com isso, somos levados a refletir sobre sua importância.

Por sua finalidade, uma avaliação minuciosa dos riscos que a área que circunda determinada obra oferece é capaz de evitar inúmeros acidentes. É preciso verificar os possíveis impactos naturais aos quais a construção estará submetida, bem como realizar de forma cautelosa suas previsões de carga, para, assim, assegurar-se de que o projeto será capaz de resistir a quaisquer inconvenientes que ameacem sua integridade.

Em entrevista ao Jornal GloboNews, o engenheiro Gerard Portela, doutor em Gerenciamento de Riscos e Segurança, atribui a negligência por parte dos profissionais projetistas para com a avaliação de riscos a alguns fatores, como a grande expectativa da população e a ansiedade das autoridades em mostrar serviço. De fato, situações como essa oferecem grande complexidade, mas, por outro lado, exigem frieza e determinação por parte do engenheiro, bem como a firmeza e autoridade para analisar e reconhecer os riscos e, se necessário, paralisar a obra e reformular soluções.

O caso da ciclovia Tim Maia, após três acidentes em três anos, nos faz pensar que é mais viável interditá-la permanentemente, ou até mesmo demoli-la. Financeiramente falando, foram 45 milhões de reais gastos em sua construção, fora os dispêndios com as manutenções que precisaram ser feitas ao longo desses anos. Será que vale a pena continuar investindo o dinheiro público em uma obra que só tem dado prejuízo? Será que os próximos investimentos de manutenção serão suficientes e adequados e garantirão que nenhum outro acidente aconteça, pelo menos nos próximos 5 anos? A resposta é: depende. A atitude mais urgente que se deve tomar é justamente a realização de uma minuciosa análise de riscos. Certamente, essa cautelosa avaliação não foi feita durante a etapa de concepção do projeto.

A necessidade dessa análise torna-se evidente visto os frequentes infortúnios que têm assolado a ciclovia. E não há problema nenhum em reconhecer a necessidade e proceder com a realização de uma etapa tão importante. A partir da análise, portanto, será possível determinar quais são as atitudes cabíveis por parte dos órgãos responsáveis.

Como engenheiros civis, devemos ter a consciência de que, ao projetar qualquer obra, por menor que seja, estamos lidando com indivíduos, com sociedades inteiras e, principalmente, temos vidas em nossas mãos. O problema vai muito além do prejuízo financeiro que possa vir a acontecer, mas diz respeito também a possíveis prejuízos à integridade física e biológica de seres vivos. É aí que se enquadra a importância da avaliação adequada de riscos.

Que sejamos profissionais comprometidos com a cidadania e segurança. Que tenhamos consciência da competência que nos é confiada. Que entendamos que não só temos uma carreira a zelar, mas também temos vidas em nossas mãos. A responsabilidade é de todos nós!

Fonte: Jornal GloboNews, 18ª edição, 7 de fevereiro de 2019.

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