A Odisseia do Ensino em Engenharia

Como o herói grego Ulisses, na Odisseia, a busca por atingir os próprios objetivos enquanto estudante de engenharia no Brasil atual pode ser altamente trabalhosa.

A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) é a 19ª melhor universidade do país segundo o Índice Geral de Cursos (ICG) do Ministério da Educação (MEC), contando com 17 cursos notas máximas no Enade, o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes. Dentre estes, valem ser elencadas as engenharias Elétrica – Sistemas Eletrônicos, Ambiental e Sanitária e de Produção.

No que tange à graduação em Engenharia Civil, o Ranking Universitário Folha coloca a UFJF em 56ª posição, uma posição bem simplória para um curso com mais de 100 anos de existência. O curso de Engenharia de Produção, fundado ainda nos anos 2000, por exemplo, está em 22ª posição no mesmo ranking, o que indica que, para este caso, tradição não implica necessariamente excepcionalidade.

Em relatório do MEC, de 2010, é afirmado acerca da graduação em Engenharia Civil que “assuntos imprescindíveis à formação do aluno não [vêm] sendo abordados em disciplinas obrigatórias”. Isso é visível ainda hoje, visto que o desenho auxiliado por computador (CAD) e a modelagem de informações da construção (BIM) são tópicos ofertados somente em matérias eletivas mesmo já havendo legislação que exija o uso desta última a partir de 2021. Também não há a oferta de disciplinas voltadas à metodologia científica, como há no curso de Engenharia Ambiental, o que pode reduzir o interesse dos estudantes em seguir carreira acadêmica.

Mas por quê isso se mantem? Bem, a construção civil no Brasil ainda se desenvolve, majoritariamente, sobre características muito manufatureiras, havendo pouco investimento em novas tecnologias ou práticas construtivas. Por consequência, como não há demanda, isso acaba se refletindo no ensino proporcionado pelas universidades no país. Cursos mais diretamente ligados a questões tecnológicas e informacionais, como as engenharias Elétricas e de Computação, acabam por obrigatoriamente desenvolver atividades em cima deste tópico, enquanto que na graduação em Engenharia Civil da UFJF tais áreas são postas de lado, como disciplinas eletivas.

A busca por tornar-se um profissional que apresente, além das competências técnicas, caráter reflexivo, crítico, inovador e desenvoltura para o trabalho em equipe acaba por se tornar uma verdadeira odisseia para o aluno quando apresentado às atuais metodologias de ensino vigentes na maioria dos cursos de Engenharia Civil. Assim como mítico Ulisses, que após os 10 anos da Guerra de Troia ainda demorou outros dez para voltar para casa devido a inúmeras tribulações, também os alunos de engenharia se vêem obrigados a passar cinco anos (ou mais!) a estudar inúmeras matérias sob uma arcaica metodologia de ensino que raras vezes lança luz sobre uma aplicação prática do conteúdo no mercado de trabalho.

O modelo de ensino atual precisa de uma reformulação que aproxime os alunos da prática, os motive e estimule os professores a se valerem de novas tendências e tecnologias para melhorar o aprendizado. Métodos ativos de ensino, como a aprendizagem baseada em problemas (problem based learning) e a aprendizagem baseada em projetos (project based learning) são alternativas viáveis de serem aplicadas para o aproveitamento dos conhecimentos teóricos desenvolvidos em uma disciplina, além de estimularem todas as características almejadas em um profissional de engenharia para o século atual. A disciplina de Contexto e Prática em Engenharia Civil, oferecida pelo professor Jordan Henrique de Souza e pela professora Gislaine dos Santos, desenvolve-se sob a metodologia project based learning, permitindo aos alunos da graduação em Engenharia Civil vivenciar já no segundo período do curso um exercício prático de uma das múltiplas atribuições de um engenheiro civil.

Consonante a tais demandas, diversas discussões estão em curso desde 2018 envolvendo setores da indústria da construção civil e membros da comunidade acadêmica a fim de atualizar a nível nacional as atuais grades curriculares dos cursos de engenharia. Agora, em janeiro de 2019, tal diálogo teve como produto maior as novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para a Engenharia, a serem publicadas até o final do ano. Um dos tópicos mais controversos, porém necessários de serem aplicados para uma formação mais holística, é concernente aos novos métodos para se avaliar os estudantes no decorrer da graduação: além da análise conteudista, as competências desenvolvidas pelos alunos no decorrer da graduação também deverão ser avaliadas em vista de estimular uma atuação mais próxima dos reais cenários de mercado aos quais os discentes serão expostos.

Todavia, a maneira de avaliar tais questões ainda está muito nebulosa entre os docentes dos cursos de engenharia. Ainda não há um método claro a ser adotado, principalmente devido às múltiplas disciplinas – umas mais teóricas, outras mais práticas – presentes na grade básica de cada graduação. O ciclo básico de disciplinas das ciências exatas, no caso da UFJF, é ofertado por um instituto independente da Faculdade de Engenharia, o que demandaria muita conversação entre profissionais de ambas as bases para melhor adequar o ensino fornecido aos alunos que se graduam engenheiros.

Uma maior capacitação de tais discentes também se faz necessária a fim de aprimorar sua prática didática e estimular o desenvolvimento de novas metodologias a serem adotadas para o ensino e a avaliação da aprendizagem em sala de aula. Laboratórios melhor equipados e recursos disponíveis para atividades de ensino, pesquisa e extensão, como as desenvolvidas pelos Programas e Grupos de Educação Tutorial (PETs e GETs) da universidade, atuariam como potencializadores na formação diferenciada dos estudantes.

Infelizmente os atuais cortes no financiamento das universidades e institutos federais (uma diminuição em cerca de 30% da verba recebida pelas instituições) acaba por dificultar tal adequação curricular e metodológica. Sob o panorama de não possuir recursos para a própria manutenção, torna-se quase impossível esperar que a UFJF seja capaz de arcar com o rearranjo de toda a sua estrutura de ensino para as graduações em engenharia a fim de respeitar as novas DCNs. Cabe aos alunos e às alunas, portanto, mobilizarem-se em vista de desenvolver as competências esperadas dos mesmos no mercado de trabalho, seja participando dos muitos seguimentos presentes na Faculdade de Engenharia ou simplesmente das atividades de oficina e minicursos ofertados.

Numa uma época em que a educação é considerada um gasto, qualquer oportunidade de aprender algo é mais do que valiosa.

Referências: CE-BIM, RANKING UNIVERSITÁRIO FOLHA, FOLHA DE SÃO PAULO, MEC, PARECER DCNs (aguardando homologação).

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