Um mergulho na evolução da exploração subaquática

É um fato consolidado que o homem conhece mais sobre o solo lunar do que sobre a própria Terra, mais especificamente, o mar. Com toda a sua importância e vastidão — mais de 360 milhões de quilômetros quadrados da superfície do planeta — ainda sabemos pouco sobre eles. Atualmente conhece-se menos de 10% do relevo dos fundos marinhos além dos 200 metros de profundidade, segundo a Organização Nacional Francesa de Hidrografia (OHI). A maior parte de nosso conhecimento está restrita a plataformas rasas na beira dos continentes e, até hoje, as regiões mais profundas dos oceanos permanecem inexploradas.

Apesar de terem ocorrido outras pesquisas em alto mar entre 1850 e 1870, o marco da oceanografia foi a expedição de 1872, com o envio de uma das primeiras embarcações para realização do mapeamento do oceano, o navio inglês H.M.S. Challenger. Durante a trajetória em uma área entre Japão, Filipinas e Nova Guiné, os primeiros dados apresentados informavam uma profundidade de 10.900 metros, revelando a maior profundeza oceânica: a Fossa das Marianas. 

 

Um pouco mais sobre a maior profundeza dos oceanos

Ilustração sobre a Fossa das Marianas. Imagem disponível aqui.

Por se tratar de um ambiente extremamente hostil, com todas as dificuldades de imersão advindas da pressão inerente à profundidade, a Fossa das Marianas provavelmente é um dos pontos menos explorados do planeta. Os seres vivos do ambiente são pouco conhecidos e adquiriram características específicas para lidarem com pouca ou nenhuma incidência de luz em um desfiladeiro 120 vezes maior que o Grand Canyon e com pressão capaz de esmagar um ser humano em milissegundos.

Localizada no Oceano Pacífico, a leste das Ilhas Marianas entre as placas tectônicas do Pacífico e das Filipinas, vários estudos foram realizados acerca de sua origem. A região abriga alguns dos mais antigos fundos marinhos do mundo, de cerca de 180 milhões de anos. A Fossa está isolada e longe da foz de qualquer rio que despeje lama no mar. Essa rachadura submarina de 70 km de largura média e 2.500 km de extensão é quase três vezes mais profunda que a média oceânica global, que é de cerca de 4.000 m. A inacessibilidade e a atração pelo desconhecido geraram, desde o seu descobrimento, fascínio pelo abismo.

Localização no espaço da Fossa das Marianas. Imagem disponível aqui.

 

A evolução tecnológica e dos conceitos físicos

O primeiro navio enviado à expedição, H.M.S. Challenger contava com um equipamento manual para a realização do mapeamento. Inicialmente, ao se deparar com tamanha profundidade, foi incapaz de mensurar corretamente, pois contava apenas com blocos de chumbo presos a uma corda com extensão de aproximadamente 8 km. Em 1872, com o H.M.S. Challenger II, comandado pelo suíço Jacques Piccard, foi empregado o sinal sonoro para o mapeamento do oceano. Com a velocidade de propagação do som na água, já conhecida, eles usaram equações físicas para calcular a profundidade máxima: 10 900 metros. Em homenagem ao navio que realizou a pesquisa, o ponto mais baixo foi batizado de Challenger Deep (“o poço Challenger”). Análises do mar colhidas nesta expedição e os resultados estão contidos num informe oficial de 50 volumes.

No entanto, o conhecimento adquirido da superfície não era o bastante para os avanços científicos e a curiosidade humana. Anos depois, em 1960, foi enviado às profundezas, usando um equipamento mais moderno, o batiscafo Trieste (veículo submersível destinado à exploração dos oceanos em regiões de águas profundas). Piccard e Don Walsh estiveram próximos ao fundo da fossa e estimaram uma nova profundidade: 11.034 metros. Essa diferença de 134 metros provavelmente se deve à movimentação das placas tectônicas na região,devido a incidência de terremotos submarinos. A embarcação era composta por uma esfera de aço com 2 metros de diâmetro e pendurada em um tanque de petróleo gigante, projetado para permitir uma boa flutuação.Durante a expedição, que durou nove horas, os dois homens passaram apenas 20 minutos no fundo do oceano – tempo suficiente para registrar a profundidade local em 10.916 metros.

Batiscafo Trieste. Imagem disponível aqui .

O batiscafo foi inventado pelo cientista suíço Auguste Piccard, pai de Jacques, na década de 1940, e revolucionou a exploração subaquática, pois era plenamente manobrável e independente.Uma boia leve superior (com 273 mil litros de petróleo) permitia à nave subir, ao passo que o lastro era acrescentado para fazê-lo afundar. Abaixo da boia ficava pendurada uma cabine de aço esférica, de paredes muito grossas, que continha a tripulação.

Deepsea Challenger. Imagem disponível aqui.

O segundo a conquistar tal feito foi o roteirista e diretor de filmes como Avatar e Titanic, James Cameron. Em 2012, atingiu aproximadamente 10.908 metros de profundidade a bordo do Deepsea Challenger. O batiscafo utilizado possuía forte resistência à compressão, sendo composto por uma resina contendo bolas de vidro ocas, proporcionando uma densidade ainda inferior à da gasolina e, portanto, um empuxo maior em um menor volume ocupado.

Em uma nova expedição realizada no mês maio deste ano, o explorador norte-americano Victor Vescovo quebrou todos os recordes e desceu sozinho em um submarino chegando à profundidade de 10 928 m. Vescovo demorou cerca de 4 horas para atingir seu objetivo. Chegando lá, a primeira coisa que o explorador visualizou foi uma bacia plana e bege coberta por uma espessa camada de lodo. A pressão nessa profundidade é de cerca de 16.000 libras por polegada quadrada, aproximadamente 110 316 145 pascal, ou seja, mais de mil vezes além da pressão no nível do mar.

Imagem de dentro do batiscafo guiado por Victor Vescovo. Imagem disponível aqui.

Apesar de todos os avanços, na última exploração do fundo do mar, Vescovo se deparou com a poluição que se revelou também uma realidade nas profundezas do oceano. Depois de encontrarem um saco de plástico e embalagens de doces a 11 quilômetros de profundidade, os cientistas planejam estudar as criaturas recolhidas na Fossa das Marianas para descobrir se mesmo no fundo do mar os animais sofrem pela ingestão de microplásticos.

As discussões ambientais que circundam a fossa das Marianas já vêm sendo debatidas desde meados da década de 1970. Com o crescimento da indústria nuclear, os japoneses propuseram o despejo de resíduos de baixo nível radioativo na profundeza marinha. A implementação da proposta foi adiada por causa dos protestos de Ilhéus do Pacífico.

Tamanha são as façanhas do homem para desvendar os mistérios que envolvem a vida marinha e toda sua estrutura. Inúmeros foram os esforços e avanços tecnológicos e de engenharia para se alcançar o ponto mais profundo do mundo, infelizmente a profundeza na ignorância ambiental é ainda pouco explorada.

Fontes: A vida no limite: A ciência da sobrevivência; Revista Marítima Brasileira; Como se descobriu o lugar mais fundo do mar; Submarino encontra plástico no ponto mais profundo dos oceanos.

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